Sítio Terra e Saúde - Sua saúde brotando da terra.
Sítio Terra & Saúde Produtos Sem Agrotóxicos. Sua Saúde Brotando da Terra. Coord. Eng. Agrônomo Jefferson Steinberg
 
01/05/1990 - *A difícil arte de vender...

O agricultor orgânico banca o desafio da venda direta ao consumidor. De quebra, se livra das exigências dos intermediários


Não é só na forma de produzir que a agricultura orgânica difere da convencional. Na hora de vender seus produtos, o agricultor orgânico tem de procurar um modo alternativo de fazê-lo.


 Aliados dos entrepostos hortifrutigranjeiros convencionais e até de algumas lojas de produtos naturais, os produtores têm de voltar à antiga venda direta ao consumidor.


Plantar, colher e vender na feira não é um ideal romântico, uma agradável volta ao passado ou o resgate de esquecidas tradições. É, isso sim, uma das poucas formas de escoar a produção orgânica.


Quem produz vegetais orgânicos não pode vender nos entrepostos do Ceagesp.


Proibido não é, mas o critério de avaliação da qualidade dos produtos é meramente visual.


E na aparência os produtos orgânicos às vezes perdem para os convencionais. Um pé de alface convencional, por exemplo, costuma ser maior do que um orgânico, pois seu crescimento foi conseguido artificialmente, à custa de muito nitrogênio solúvel, mas com prejuízo do valor nutritivo e biológico.


Suas folhas também são mais bonitas, sem nenhum furinho.


O produtor convencional não dá chance aos insetos que furam as folhas. Ao primeiro sinal de um bichinho ele pulveriza toda a horta com inseticidas.


O produtor orgânico, ao contrário, sabe que um ou outro furo nas folhas é muito mais aceitável que resíduos de agrotóxicos, mas esse argumento não basta para melhorar a classificação do seu produto.


Os vegetais convencionais sempre conseguem classificação melhor que os orgânicos.


Em busca de alternativas


Para fugir desse esquema, o produtor pode tentar colocar seus vegetais em lojas de produtos naturais, mas esse também não é o melhor canal.


As lojas precisariam receber as verduras diariamente para tê-las sempre frescas, e o custo do transporte seria muito alto.


Algumas também exigem que os produtos sejam deixados em consignação, para serem devolvidos, se não forem vendidos.


O pior é que o consumidor não tem garantia de que o produto realmente seja orgânico.


O arroz integral, por exemplo, não recebe o mesmo beneficiamento que o arroz branco, mas quem garante que não está impregnado de agrotóxicos?


O mel produzido em regiões de culturas convencionais de laranja e maça, por exemplo, pode estar contaminado com acaricidas e fungicidas.


Isso deixa dúvidas quanto à qualidade dos produtos vendidos nas lojas.


O melhor caminho para o produtor orgânico é a venda direta ao consumidor.


Mas poucos compradores se deslocariam dos grandes centros até os “cinturões verdes” só para comprar produtos orgânicos.


E não saberiam onde comprar, a menos que os produtores investissem maciçamente na divulgação.


Também é muito difícil conseguir fornecer para restaurantes. Em geral, eles compram de intermediários que trazem dos entrepostos do Ceagesp uma variedade maior de produtos e sem os furinhos nas folhas.


Se o produtor pensa em vender nas feiras-livres, encontrará outros tipos de problemas.


O ideal seria procurar as feiras de bairros de classe média e alta, onde os fregueses conhecem o perigo dos agrotóxicos.


Mas nem sempre se consegue entrar numa feira desse tipo. O agrônomo e produtor Jefferson Steinberg tentou e acabou entrando numa feira nova, experimental. “Na feira-livre, você tem de vencer o descrédito do consumidor”


Em uma plaqueta ele informava tratar-se de produtos orgânicos e todo mundo perguntava o que era aquilo.


Mesmo explicando que era agrônomo e que plantava sem usar produtos químicos, nem todos os curiosos compravam.


Ele também aponta o problema da segmentação nas feiras paulistanas. Quem vende verduras e legumes não pode vender frutas e vice-versa.


 Para o produtor orgânico, que procura diversificar ao máximo, esse não é o melhor canal.


A cesta em casa


Na região metropolitana de São Paulo muitos produtores encontraram uma forma de venda direta diferente.


Eles entregam na casa do comprador, uma vez por semana, uma cesta com oito a dez tipos de vegetais.


A divulgação é feita pelos próprios consumidores, que costumam indicar um ou outro amigo interessado.


O custo de distribuição das cestas é alto, mas o produtor tem a garantia do escoamento de toda a sua produção.


Jefferson Steinberg, com uma freguesia de 120 cestas semanais, diz que esse é o melhor canal de distribuição para a agricultura orgânica.


O primeiro, em sua opinião, é a feira de produtos orgânicos promovida todos os sábados pela Associação de Agricultura Orgânica no Parque da Água Branca, em São Paulo.


Com o aval da AAO, os consumidores não questionam a procedência dos produtos. Em geral, o comprador que vai ao Parque da Água Branca é bem informado e se preocupa em preservar a saúde.


Não se trata, entretanto, de uma população de atletas metidos em agasalhos de ginástica.


Essas pessoas valorizam o trabalho dos produtores e acreditam na probidade da Associação. E a AAO faz questão de manter a credibilidade que tem junto aos consumidores.


Um exemplo disso é a proibição da venda da maioria dos produtos de origem animal – o mel é uma exceção – na feira.


Somente após a divulgação das normas técnicas é que os produtores poderão ser credenciados.


Para o mel, as normas de produção vegetal são suficientes.Embora a feira ainda seja muito nova – a primeira ocorreu no início de março – , o modo como foi recebida pelos consumidores sugere que ela venha a ser feita também em outros dias e em locais diferentes. . “Mas por enquanto a produção de alimentos orgânicos perto de São Paulo ainda não é suficiente para atender a um número maior de feiras.”


Jefferson Steinberg confirma: quem produz também tem uma freguesia de cestas, opção mais cômoda para o consumidor. E comodidade ainda é um bom apelo de venda.
[...]


 


Manual da Agricultura Orgânica


Maio 1990


NOV/2006

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