|
Sem inseticidas, herbicidas ou adubos químicos, a agricultura orgânica conquista produtores e consumidores preocupados com a saúde, qualidade alimentar e preservação do meio ambiente
A agricultura orgânica não é mais coisa de gente idealista, que opta por cultivar sua própria horta e diz ‘não’ às hortaliças e legumes produzidos no método tradicional, ou seja, com agrotóxicos. Na verdade, é um processo que procura nos primórdios da agricultura, a tecnologia de produção sustentável econômica e ambientalmente exigida pela sociedade do futuro.
A partir dos anos 90, o termo orgânico ganhou importância em todo o mundo e tornou-se palavra-chave do século 21. Sua proposta é não usar inseticidas, fungicidas, herbicidas e adubos químicos. Pode ser classificado com o uma visão holística da agricultura, em que solo, semente, água, insetos, integram um mesmo organismo.
Na agricultura orgânica, a natureza é vista e tratada como um todo.
Cada qual deve cumprir seu papel para garantir uma boa colheita. Os produtores se preocupam com as condições físicas, biológicas e químicas do solo, que é analisado como um sistema vivo.
Em todo o mundo, o selo orgânico indica, principalmente, uma preocupação com os métodos e processos usados na produção. É fundamental respeitar integralmente o meio ambiente e a saúde, não apenas de quem consome, mas também de quem produz.
Segundo o engenheiro agrônomo Jefferson Steinberg, 41 anos, o Brasil é um dos países em que mais se abusa do uso de agrotóxicos. “As pessoas ingerem esses produtos químicos em pequenas doses, diariamente. Os efeitos virão em longo prazo”, alerta.
O engenheiro conta que, desde a época da faculdade, a idéia de produzir alimentos orgânicos, já era um ideal.
Ele foi um dos pioneiros a investir na agricultura orgânica; seu trabalho teve início em 1988, quando começou a cultivar hortaliças (legumes e verduras) no Sítio Terra e Saúde, em Ibiúna.
“No começo, trazia os alimentos orgânicos para os vizinhos. Hoje, participo de uma rede que faz entrega em domicílio”, disse. Em seu sítio, todos são conscientizados para a importância do cultivo orgânico. Steinberg afirma que é muito difícil encontrar mão-de-obra especializada e, por isso, o produtor tem de estar sempre atento. “O respeito às normas para o cultivo de orgânicos sempre acontece.
Mas, é preciso observar as questões menores, como um funcionário que fuma e pode jogar a bituca do cigarro no solo, e a questão do armazenamento de lixo na propriedade”, explica.
A agricultura orgânica exige muitos cuidados. Por isso, alguns produtores resistem à conversão de áreas de agricultura convencional para o manejo orgânico.
Embora utilizado por muitos produtores, o método é demorado e oneroso. A conversão se inicia pela suspensão total do uso de insumos sintéticos e sua substituição por insumos naturais e biodegradáveis renováveis pelo período necessário à “desintoxicação”. Enquanto a terra apresentar vestígios de agroquímicos ou fertilizantes sintéticos, a sua produção não poderá ser considerada orgânica.
A recomposição da condição de fertilidade natural se dá pelo repovoamento do solo pelos microorganismos responsáveis pela decomposição da matéria orgânica e suprimentos dos elementos minerais necessários ao desenvolvimento a cultura pretendida.
O tempo necessário para que esse processo se complete depende das condições originais do solo e do tipo de cultivo a ser realizado. No caso de culturas vegetais temporárias, o prazo oscila entre um e dois anos, chegando há três anos para culturas permanentes. [...] Steinberg também observa tais dificuldades e avalia que a Prefeitura deveria abrir mais espaços para o comércio de orgânicos. “Os alimentos são mais caros nos supermercados”, conta. A única feira mantida pela Prefeitura, por intermédio da Secretara Municipal de Abastecimento (Semab) foi paralisada. Segundo a Assessoria de Imprensa da Semab, existem estudos para que a feira seja reativada no início do próximo ano. Na verdade, o alimento orgânico não é tão caro quanto parece.
Os alimentos convencionais podem sair mais barato, mas não se pode esquecer dos custos ambientais e médicos.
Os produtos orgânicos possuem selos fornecidos por certificadoras, entidades que garantem a autenticidade dos produtos. Elas fazem inspeções regulares nos locais de produção, controlam a qualidade da terra, dos métodos, as técnicas, os recursos e os insumos utilizados pelos produtores.
No Brasil, atuam 19 entidades que certificam (concedem selo) ou organizam a produção e venda de alimentos orgânicos sem certificá-los.
Por aqui, a certificação teve origem informal, por meio do trabalho desenvolvido por organizações não-governamentais (associações e cooperativas de produtores e consumidores), que estabeleceram padrões e normas internas para produção e comercialização e criaram selos de garantia para seus produtos (selos de certificação), direcionados principalmente ao mercado interno.
Um exemplo disso foi a criação em 1989, da Associação de Agricultura Orgânica (AAO) que fornece selo de produtos orgânicos, acompanha os produtores certificados ou em processo de certificação e promove feiras para a venda direta ao público.
Segundo Simone Saraiva, coordenadora de Ações Sociais, a AAO tem 2.600 associados. “A Associação congrega consumidores e produtores e presta assessoria de forma ampla aos seus sócios”, informa.
Além disso, matem uma grade fixa de cursos e realiza atividades ‘in loco’ nos campos de cultivo. A Associação e a certificadoras têm atuações diferenciadas. A coordenadora conta que a separação ocorreu em 1993, quando os associados sentiram a necessidade de que houvesse uma produção mais organizada. “A certificadora obedece às normas da Associação”, acrescenta.
É a certificadora que avalia se a produção está apta ou não para tornar-se orgânica. Os técnicos fazem a inspeção na área e preparam um relatório com os dados sobre o que é produzido, de que forma, como é tratada a terra. De seis em seis meses a área é inspecionada, garantindo assim a credibilidade do selo orgânico.
Ainda segundo a AAO, o produto orgânico não apresenta diferenças aparentes relativamente ao produto convencional, seja forma ou cor. Assim, o que leva um consumidor a preferi-lo é a informação sobre suas vantagens nutricionais, a ausência de toxicidade e a confiança de que foi produzido conforme os preceitos que preservam esses fatores.
Por isso, é fundamental estar atento ao selo orgânico. “Muitas pessoas confundem o produto orgânico com hidropônico, por exemplo”, ressalta Simone.
O engenheiro agrônomo Jefferson Steinberg explica que o hidropônico é cultivado em água que contém adubos químicos. “A água substitui a terra; essa é a diferença entre o hidropônico e a agricultura convencional. No entanto, nesse cultivo são usados adubos químicos e isso o diferencia da produção orgânica”, afirma.
... a produção orgânica é um exemplo. Embora muitos produtores optem pela conversão observando somente a questão da saúde, sem dar valor aos princípios ecológicos. “A produção de orgânicos oferecem perdas maiores ao agricultor, devido às pragas e as intempéries”, lembra.
[...]
Revista CORPO E MENTE
Ano V
N.º 17
NOV/2006
|