|
A necessidade de se alimentar sem pôr a saúde em risco está levando cada vez mais consumidores a preferir produtos de origem orgânica, que são encontrados não só nas feiras alternativas como também na rede de grandes supermercados.
Qualidade de vida é um assunto que desperta crescente interesse, influenciando muita gente a adotar hábitos mais saudáveis. Até porque o consumidor brasileiro, que há duas décadas tem um código de defesa para conter os abusos, vem amadurecendo com outra consciência a sua relação com o mercado e as empresas que produzem para atender a suas necessidades.
Esse cuidado aumenta quando é a saúde que está em questão e a pessoa já possui alguma informação para ajudá-la a decidir.
Por isso, o alimento transgênico (aquele geneticamente modificado) está sendo fortemente rejeitado pelo público, que assim recusa a incorporar o papel de consumidor passivo e manipulável.
Na classe média paulistana, um notável exemplo dessa atitude da procura pelo alimento orgânico, cuja produção e processamento não utilizam agrotóxicos, adubos químicos ou recursos como radiações ionizantes e modificações genéticas.
A agricultura orgânica é um sistema que privilegia a preservação da saúde ambiental e humana, aplicando tecnologias que otimizam o uso de recursos naturais e sócio-econômicos, sem desrespeitar a integridade cultural e objetivando a auto-sustentação no tempo e espaço, a maximização dos benefícios sociais e a minimização da dependência de energias não-renováveis.
Tudo indica que o universo dos adeptos da alimentação natural (usando uma expressão genérica típica das décadas anteriores) está se expandindo muito além do ambiente de restaurantes e entrepostos especializados. Basta observar que, hoje em dia, pode-se comprar produtos “alternativos” inclusive na rede de grandes supermercados como o Carrefour e o Pão de Açúcar, em pontos cuidadosamente separados de outros artigos.
Nos países da Europa, o mercado de produtos orgânicos traz uma história de mais de quatro décadas, e geralmente o agricultor é subsidiado para dedicar-se à atividade. [...] Foi na feira semanal do Parque da Água Branca, na zona oeste da cidade de São Paulo, que fomos buscar os motivos do aumenta da demanda por esses alimentos.
Essa feira existe há cerca de dez anos e foi criada pela Associação de Agricultura Orgânica (AAO) para aproximar o produtor orgânico do mercado consumidor.
Atualmente são 35 produtores que ali comercializam, dois dias por semana, uma diversificada relação de produtos como verduras, legumes, cereais, batata, frutas de estação, ovos, frango, laticínios, mel, leite de cabra, café, pães, doces caseiros, entre outros.
Alguns desses produtores oferecem serviço de entrega em domicílio, dando ao consumidor a comodidade de montar a cesta com os artigos que desejar. [...] Além do antibiótico, deve-se considerar todo hormônio (tecnicamente denominado “promotores de crescimento”) colocado na ração da ave para inchá-la.
Agentes anabolizantes também podem ser encontrados na carne vermelha, bem como antibióticos e inseticidas (para combater carrapatos e berne de gado) podem estar no leito nosso de cada dia.
É bem conhecido o uso abusivo que se faz dos agrotóxicos no Brasil, o que lhe valeu ser apontado pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) entre os países mais descontrolados na aplicação de pesticidas.
Em agosto do ano passado, por exemplo, a Agência de Proteção Ambiental dos EUA anunciou o banimento de uma classe de pesticidas muito utilizada, que tem por princípio ativo a substância paration-metil. Entretanto, o agricultor brasileiro dispõe de nove produtos, devidamente regulamentados, que contém essa perigosa substância em sua composição.
Especialistas esclarecem que, em grandes quantidades no organismo, o paration-metil provoca salivação e sudorese excessivas, contração das pupilas, bronquite, cólicas intestinais, diarréia, redução dos batimentos cardíacos, depressão, convulsões e coma.
Ente os alimentos mais propensos a apresentar resíduos de pesticidas estão o morango, a goiaba, o pêssego, a laranja, o tomate, a batata, a cebola e a cenoura.
Além das folhosas que são consumidas cruas e devem ser lavadas em água corrente, e depois mergulhadas por 20 minutos numa solução de água com vinagre, antes de serem ingeridas.
“O tomate orgânico é mais difícil de produzir, É uma cultura bastante sensível e precisa de estufa”, explicou Jefferson Steinberg, outro engenheiro agrônomo, produtor e comerciante da feira do Parque da Água Branca, que não deixa de relacionar a maior procura pelo produto orgânico também com as descobertas feitas pela medicina molecular sobre o valor desse alimento.
“A produção em massa é interessante porque permite atingir uma parte maior da população, dá condição de aumentar o público consumidor do alimento orgânico. Mas o importante é ter a certificação do produto”, ressaltou Jefferson.
A certificação é obtida com o selo de qualidade que algumas associações de produtores criaram para garantir a autenticidade do produto orgânico.
Em São Paulo, a Associação de Agricultura Orgânica e o Instituto de Biodinâmica (IBD) executam essa função, atendendo ao crescimento do mercado e conferindo maior segurança aos consumidores e outros revendedores desses alimentos.
O selo orgânico assegura não só a oferta de alimentos livres de substâncias nocivas à saúde e de reconhecido valor nutricional, como também indica que as associações estão monitorando as condições de preservação ambiental estabelecidas por seus produtores, em obediência às regras da agricultura orgânica.
A AAO ´uma das maiores associações da América Latina, com participação na Federação Internacional dos Movimentos de Agricultura Orgânica (Ifoam), sediada na Alemanha.
Até o início deste ano, ela registrava cerda de 300 produtores certificados, sendo 37% na regão do Pólo de Ibiúna, que inclui os municípios paulistas de Cotia, Piedade e São Roque.
Sob o acompanhamento da associação, que também contrata profissionais para orientar e passar técnicas de produção ou manejo a custo mínimo, tais produtores têm peso diferencial em relação aos outros que não são certificados.
Como existem várias certificações diferentes está em discussão a Portaria MA n.º 505, de 16/10/98, que estabelecerá as normas de produção, tipificação, processamento, envase, distribuição, identificação e de certificação da qualidade para os produtos orgânicos de origem vegetal e animal.
Os representantes de cada entidade deverão constituir um colegiado nacional para tratar da normatização e certificação desses produtos. Isso beneficiará sua comercialização inclusive no mercado externo, já que nos países da Comunidade Européia, por exemplo, se exige que os produtos orgânicos sejam certificados por entidades reconhecidas pelos governos dos países de origem.
Participando da feira do Parque da Água Branca desde o início, o produtor Jefferson Steinberg acredita que a discussão sobre o alimento orgânico deve se estender à questão da educação ambiental, envolvendo temas como o uso da embalagem e reciclagem, chamando atenção para “o cuidado holístico da propriedade”.
“Fazemos o uso de várias técnicas como a adubação verde e a rotação de cultura. Quanto mais material orgânico o manejo do solo for carregando, melhor será o nível de nutrientes satisfatórios e o equilíbrio alcançado”, disse ele, que costuma ser procurado pelos consumidores para dar informações técnicas e tirar dúvidas sobre o cultivo.
Jefferson encara o aumento da procura por esse tipo de alimento como sinal de uma fase de maior preocupação das pessoas com a saúde, sem, no entanto confiar na continuidade desse comportamento a longo prazo.
“O produto orgânico é mais caro, mas não se deve fazer comparação de preços com o Ceasa. É preciso chegar a um preço mais equilibrado e justo, que compense todo o trabalho do agricultor orgânico, que é mais artesanal. Com o tempo, e o produtor tendo uma economia de escala maior, esse preço poderá baixar”, analisou.
A consciência de estar contribuindo, ainda que de forma indireta, para a conservação da natureza pe outro aspecto a ser levando em conta do perfil desse consumidor, demonstrando certo engajamento ideológico avesso aos modismos de estação.
“Poder comprar um alimento sem agrotóxicos, tendo a consciência de que a pessoa que está plantando também está protegendo a terra, é uma coisa holística”, expressou Altina Felício dos Santos, moradora há 20 anos da região do Parque da Água Branca e cliente cativa da feira.
“Noto que a verdura daqui dura mais tempo. Depois de uma semana na geladeira, o pé de alface ainda está fresco. Em casa somos poucos, mas nem todos os alimentos que consumimos são de origem orgânica. Infelizmente ainda não dá, até porque eles são um pouco mais caros. Na última hora, a gente acaba indo para o supermercado mesmo.
Outros consumidores que já tiveram problemas de saúde com produtos do mercado comum, como foi o caso de José Hélio Domingues, podem ser levados a uma transformação radical dos seus hábitos alimentares: “Lá em casa somos em cinco pessoas, e há dois anos só entra esse tipo de alimento. Eu gosto muito de tomate e isso estava me causando muita dor de estômago. Aí passei a consumir aqui na feira e a dor foi sumindo. Foi uma melhora muito grande. O alimento é um pouco mais caro, mas a saúde não tem preço, está em primeiro lugar”, sentenciou José Hélio, manifestando sua preferência por alimentos “o mais natural possível”.
Seguindo as tendências americanas e de países europeus como França e Alemanha, que vêm dando grande estímulo à agricultura orgânica até por rejeição ao alimento transgênico, no Brasil já existem iniciativas de produção em ampla escala para exportação, considerando que esse mercado está em franca ascensão.
Por ocasião da I Feira Nacional de Produtos Orgânicos (Fenapro), realizada em São Paulo entre setembro e outubro do ano passado, foi previsto que o setor movimentaria cerca de US$ 23,5 bilhões em todo o mundo até este ano. [...] Sonhar que o alimento orgânico será um dia popularizado não é uma postura de quem esta alerta à realidade sócio-econômica do País.
Mas, se a demanda pelo produto continuar crescendo, é certo que o brasileiro estará fortalecendo seu direito de escolha e, quem sabe, descobrindo o poder do consumidor de alterar o rumo do que não lhe convém.
Revista Planeta
Edição 331
N.º 4
NOV/2006
|