Sítio Terra e Saúde
Sítio Terra e Saúde - Sua saúde brotando da terra.
Sítio Terra & Saúde Produtos Sem Agrotóxicos. Sua Saúde Brotando da Terra. Coord. Eng. Agrônomo Jefferson Steinberg

 
01/03/1989 - Produzindo hortaliças com sabor natural

Ao cursar agronomia na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, em Piracicaba, interior de São Paulo, Jefferson Steinberg já se interessava por formas de cultivo que não agredissem o meio ambiente.


 


Participava de um grupo de agricultura alternativa formado por alunos e, ao longo do curso, freqüentou disciplinas optativas que, embora timidamente, apontavam nessa direção.


 


Mas a aprendizagem e a familiazarização com a prática da agricultura orgânica ocorreram só depois de formado, em estágios que realizou na propriedade de Yoshio Tsuzuki, agrônomo e expressivo produtor orgânico de hortaliças no Estado de São Paulo.


 


Steinberg procurou conhecer também os métodos usados na Estância Demétria e na Fundação Mokiti Okada, núcleos paulistas de agricultura orgânica, mas não adota nenhuma linha em particular.


 


Procura aliar um conjunto de técnicas de diferentes origens, aproveitáveis e adaptáveis às condições de sua propriedade, que beneficiem o solo e o cultivo, com o menor impacto e agressão ambiental possíveis.


 


Por exemplo, usa cobertura morta, compostos orgânicos e esterco, húmus proveniente de minhocas, faz aplicação de preparados, consorciação e rotação de culturas, cultiva plantas atrativas de insetos e pragas e descarta a utilização de defensivos agrícolas.



No Sítio  Zurupaê de propriedade de Steinberg, localizado em Ibiúna, município a 80 km de São Paulo, o produtor cultiva um amplo leque de hortaliças, como beterraba, cenoura, nabo, rabanete, couve-manteiga, brócolis, couve-flor, abobrinha, pepino, chuchu, quiabo, berinjela, pimentão, repolho, tomate, alface, escarola, espinafre, salsinha, cebolinha, milho verde, feijão-vagem, rúcula, almeirão, catalonha, mostarda e acelga.


 


O solo da propriedade é areno-argiloso, como topografia ondulada, mas tratorável.


 A área total é de 4,8 ha, sendo a maior parte composta de mata e apenas 1 ha limpo, onde se realiza o cultivo.


 


Steinberg pretende desmatar mais 1,5 ha para aumentar sua produção e, enquanto a autorização não chega, arrendou uma área vizinha, de 2,4 ha.



Quando ele comprou o sítio em junho de 1986 ele já estava decidido a realizar o cultivo orgânico de hortaliças e adotar o sistema de comercialização direta ao consumidor, entregando a domicílio caixas com diversos tipos de hortaliça.


 


 Três meses após ter fechado o negócio, já estava começando a plantar. Antes, porém, precisou realizar investimentos para levar energia elétrica até a propriedade e planejar e instalar o sistema de irrigação por aspersão.


 


Naquela época utilizava um burrico para arar a terra e as entregas iniciais foram feitas em seu Fusca. Mais tarde comprou uma Kombi e um microtrator e atualmente conta com três empregados para todas as tarefas.


 


Espalhando calcário



Steinberg gosta de recordar esse tempo, especialmente o dedicado ao preparo do solo, técnica que repete até hoje.


 


O primeiro aspecto a merecer atenção é a correção da acidez, determinada pela análise, elevando o pH para 6 e 6,5, o preferido para a maioria das hortaliças.


A terra é arada e gradeada numa só operação a 10 cm de profundidade, com microtrator e enxada rotativa, e o calcário aplicado nos canteiros e covas.



Minucioso, relata cada detalhe do plantio das hortaliças. De maneira geral, para o cultivo da couve-flor, repolho, brócolis, por exemplo, prepara e aduba as sementeiras com aproximadamente 2 kg/m2 de esterco de galinha curtido ou composto orgânico, conforme a disponibilidade do produto, mais 300 g/m2 de termofosfato.


Se a área já tiver sido bem adubada em cultivos anteriores, essa aplicação pode ser dispensada.


 


Mas, se o solo se revelar menos rico, é possível usar 1kg / m2 de esterco de galinha e 300 g /m2 de termofosfato.


 


Portanto, a adubação depende da situação observada na faixa de terra e do tipo de hortaliça que se cultivará.


 


O produtor acomoda as sementes em sulcos distantes 10 a 15 cm entre si e numa profundidade equivalente a três a cinco vezes o comprimento delas.


As sementes são adquiridas no mercado, nas variedades adequadas à época de plantio (verão e inverno).



A raleação é realizada quinze dias após a germinação, quando as plantas apresentam uma filha definitiva acompanhada do surgimento da segunda, ou já com duas folhas definitivas, deixando uma muda a cada 5 cm.


 


Ao apresentar 20 cm de altura e cinco folhas definitivas, ao redor de trinta dias a semeadura, são transplantadas para as covas já preparadas.


 


As sementeiras recebem regas diárias até a germinação.


Abertas com o auxílio da enxada ou com a mão, com espaço de 70 a 80 cm entre linhas e 50 cm entre plantas, as covas devem ter profundidade suficiente para abrigar todo o sistema radicular das plantas.


 


Em cada uma delas, por ocasião do plantio, é colocada meia pá rasa de composto ou esterco curtido, entre 100 a 150g de termofosfato e 300 g de calcário, caso não tenha sido feito correção anterior. “Às vezes, dispenso o calcário, pois o termofosfato já corrige a acidez”, afirma o produtor.



Atento às novidades, o produtor está realizando o cultivo consorciado da alface e cenoura em canteiros com 1 m de largura e 15 cm de altura. Neles põe 2kg / m2 de esterco de galinha ou composto orgânico, uma semana antes do plantio. E, no momento do plantio, mais 300 g/m2 de termofosfato, como fonte de fósforo.


 


Nessa consorciação, ele aumentou o espaçamento que usava para a alface para 30 cm entre linhas, semeando a cenoura ao centro (15 cm da linha da alface) no momento de transplantar essas mudas.



Na sua opinião, a prática permite melhor aproveitamento da área, além do fato de serem plantas companheiras, liberando pelas suas raízes substâncias que as favorecem mutuamente. Isso é comprovado tanto pelas folhas mais brilhantes e bonitas das alfaces como pelo tom alaranjado mais intenso das cenouras.


 


O próximo consórcio, já em planejamento, será o da alface com a beterraba. O produtor também adota a rotação de culturas, procurando plantar pelo menos um ciclo com hortaliças de famílias diferentes.


 


Sanduíche orgânico



Todos esses cuidados são complementados com o emprego do composto orgânico. Para o seu preparo Steinberg usa o material vegetal que estiver à disposição – capim, bagaço de cana ou palha de feijão -, somado ao esterco de galinha.


 


A proporção utilizada é de três partes de material vegetal para uma de esterco, disposto ao ar livre em camadas sucessivas e alternadas de 15 cm de altura do material vegetal e de 5 cm de esterco de galinha, formando uma espécie de sanduíche com 1 m de largura por 1,5 m de altura e de comprimento variável.


 


A primeira camada, diretamente no solo, é de material vegetal, bem como a última, que não recebe proteção alguma, com exceção de um plástico nos períodos muito chuvosos, para o composto não ficar encharcado.



Um pouco de umidade, porém, é necessário, tanto que Steinberg recomenda molhar as camadas à medida que forem sendo assentadas, fazendo-as ficar com 60% a 70 % de umidade, ou seja, quando se aperta o material, ele não chega a escorrer.


 


Fermentos apropriados, que podem ser espalhados no composto para acelerar o processo de decomposição do material, dão bons resultados.


 


Às vezes, para enriquecer o composto, ele adiciona ao sanduíche adubo fosfatado super simples ou termofosfato na proporção de 1% (para cada tonelada de composto adiciona 10 kg de um ou outro).



Depois de pronta a pilha, durante os primeiros quinze dias, revira o monte a cada três ou quatro dias, colocando em cima as camadas que estavam na parte de baixo e vice-versa.


 


Nesta fase inicial também controla a temperatura do composto (o material em decomposição libera calor), para que não fique acima de 70º C, o que consegue introduzindo uma barra de ferro na pilha, por cinco minutos.


 


Se, ao retirá-la, não conseguir segurar a parte introduzida, pelo excesso de calor, é sinal de que a temperatura está acima do ideal. Portanto, a pilha deve ser molhada externa e internamente.



Outra circunstância em que a pilha deve ser umedecida é quando se formar um fundo de coloração branca no composto, indício de falta de umidade. Habitualmente, o composto está pronto para uso após três meses de preparo, o que pode ser conferido pelo cheiro de terra que exala. Ou, por um rápido teste, quando se coloca um pouco do composto num copo de água e ele apresenta coloração preta, dissolvendo-se quando agitado.


 


Se apresentar coloração marrom e permanecer depositado no fundo do copo, não deve ser usado.



Após a semeadura ou transplante, havendo disponibilidade de tempo e material, o produtor aplica cobertura morta sobre a terra o mais rápido possível. Com isso, mantém a umidade do solo, diminui a erosão, evitando o impacto das gotas de chuva no solo nu, abafa o aparecimento de ervas daninhas, impede oscilações bruscas na temperatura do solo e cria ambiente para inimigos naturais de pragas.


 


Ele destaca, no entanto, que essa cobertura é importante principalmente no verão, pois mantém a temperatura do solo abaixo de 33º C, média ideal para o bom desenvolvimento das raízes. Em condições de inverno ameno deve ser bem rala, enquanto no inverno rigoroso pode ser dispensada, para que os raios solares aqueçam o solo.



Como cobertura o produtor tem usado capim nativo ou bagaço de cana, passado numa trituradeira e levado diretamente ao campo. A camada aplicada fica em torno de 2 a 3 cm de altura no verão, não ultrapassando 1 cm no inverno.


 


Quando as sementes estão germinando, afasta ligeiramente essa cobertura com a mão. Dando espaço para que as plantinhas brotem sem dificuldades.


 


Chá de urtiga



Dependendo do desenvolvimento das plantas, os canteiros recebem adubações complementares, com esterco de galinha jogado a lanço e incorporado.


 


Especialmente nas hortaliças folhosas, quando não há desenvolvimento satisfatório o produtor usa chá de urtiga (urtiga dióica), substituindo o esterco, de acordo com a indicação da agricultura biodinâmica da Estância Demétria, que aponta essa planta como rica em nitrogênio e ferro.



Ele prepara um litro do chá com um punhado de folhas adquiridas em lojas de ervas medicinais e o dilui em 10 litros de água, pulverizando as plantas.


 


Também como adubação complementar, em razão do menor desenvolvimento das hortaliças, pode recorrer às pulverização com aminoácidos (subprodutos da indústria do peixe somado a ácidos húmicos) principalmente como fonte de nitrogênio orgânico e ácidos húmicos que estimulam o desenvolvimento das plantas.



Na opinião do horticultor, ter o solo sadio é o primeiro passo para a produção de plantas resistentes a pragas e doenças. Ele afirma que, nos primeiros cultivos realizados, os canteiros de acelga e mostarda (culturas sensíveis e indicadoras do equilíbrio entre pragas e inimigos naturais) foram intensamente atacados por insetos mastigadores.


 


Isso porque seu solo não se achava ainda nas condições ideais e o ambiente não estava equilibrado com inimigos naturais.


 


Mas, em vez de partir para pulverizações com inseticidas, deixou que as plantas fossem atacadas, melhorando cada vez mais as condições do solo, com adubações. Permitiu também o surgimento de inimigos naturais, pela manutenção de vegetação nativa nos limites da propriedade e em tono do pequeno reservatório de água usado para irrigação, criando um refúgio para esses inimigos das pragas.



Outra prática adotada como controle é a utilização do girassol plantado em bordadura na área cultivada funcionando como atrativo de lagartas e insetos mastigadores e aliviando as hortaliças.


 


O girassol também atrai as abelhas, que ajudam na polinização de plantas como a abóbrinha. Mais: cultivou tomate, cercado por uma linha de milho, com a função de servir de quebra-vento e de barreira física contra pulgões e tripés, que são insetos vetores de doenças vira-cabeça. E, em algumas situações, usou outros recursos.


 


Certa vez, as sementeiras foram atacadas por pulgões, que ele combateu com pulverizações preparadas com 200 g de cinzas de madeira diluídas em 10 litros de água, coados e aplicados após um dia de repouso.


 


Habitualmente, porém, não tem enfrentado problemas com pragas.



Em termos de doenças, acredita que, trabalhando com variedades resistentes aos males mais comuns e adotando cuidados como não irrigar em excesso, evitar ferimentos nas plantas, cultivar em solo rico e sadio e em situação climática favorável, seja possível livrar a produção da ocorrência de doenças.


 


Lembra que em janeiro surgiram podridões na acelga e pintas nas folhas de rúcula, causadas pelo excesso de chuvas no período, mas optou por não realizar nenhum tratamento químico, para não desequilibrar o meio ambiente.


 


A aplicação de chá de cavalinha (Equisetum arvense) não seria possível, pois as chuvas impediriam sua ação. Preferiu assumir as perdas e, por ser rápido o ciclo da cultura, no próximo plantio haverá a recuperação do que foi perdido.


 


Colheitas semanais



As semeaduras que Steinberg realiza são escalonadas de maneira a permitir ter colheitas semanais.


 


 As raízes como cenoura e nabo, por exemplo, são colhidas no período da tarde, depois que o sol forte já se foi, na véspera do dia em que serão comercializadas.


 


São levadas para um galpão rústico e aberto, onde se faz a lavagem numa caixa de água comum, abastecida por uma mangueira, permanecendo no galpão ate a manhã seguinte, quando são então colhidas as folhas.



A colheita das inflorescências de brócolis começa com o corte das mais fechadas, aproximadamente aos noventa dias da semeação. As plantas rebrotam, permitindo cinco cortes em média.


 


Para manter a couve-flor branca, quinze dias antes da colheita corta algumas folhas laterais da planta, colocando-as sobre a cabeça em formação, para evitar incidência de raios solares.


 


Noventa dias depois da semeação, quando as inflorescências estão bem fechadas, inicia-se a colheita. Esse mesmo período é usado para a colheita do repolho.



Quando começou a produzir, Steinberg não dispunha de nenhum ponto fixo para comercialização do produto.


 


Para vender às lojas de produtos naturais, teria de fazer um preço baixo, garantindo a margem de revenda para lojistas. Por isso, decidiu partir para a comercialização direta ao consumidor, realizando entregas semanais ou quinzenais nas residências dos compradores.


 


Cada caixa que entrega possui dez variedades de hortaliças. Ele procura equilibrar raízes e folhas, diante da disponibilidade.



Em janeiro, estavam sendo comercializadas semanalmente entre quarenta e cinqüenta caixas, vendias a 4 cruzados novos cada. Além disso, aos domingos monta uma barraca na feira do bairro da Previdência, Zona Oeste da cidade de São Paulo, onde vem divulgando seu produto e conquistando clientela.


 


Também passará a comercializar a sua produção e a de outros produtores orgânicos num boxe que adquiriu na Central de Abastecimento Sul, um novo mercado da prefeitura, a ser inaugurado.



Ele diz que sua remuneração corresponde ao salário médio de um agrônomo num negócio próprio. Sua intenção é continuar investindo na atividade, até chegar a comercializar entre oitenta a cem caixas por semana e manter abastecidos seu boxe e barraca.


 


Neste ano, ainda pretende instalar um galinheiro no sítio, para a produção de ovos caipiras. As galinhas serão alimentadas com sobras de culturas e com ração sem antibióticos, aproveitando-se, portanto, os restos e obtendo-se esterco para a horta.


 


 Steinberg vai criar também minhocas vermelhas da califórnia para a obtenção de húmus, que considera um excelente condicionador e fertilizante do solo. No ano passado realizou uma pequena experiência com essa criação e os bons resultados conseguidos levaram-no a pensar em tornar definitiva a atividade.


 


A médio prazo, em razão dos pedidos de sua freguesia, pretende também instalar na propriedade um pomar orgânico com pés de laranja, limão, caqui, jabuticaba, mamão e amora, escolhendo árvores que frutifiquem em época diferentes.


 


Assim, poderá oferecer durante todo o ano frutas produzidas organicamente.


 


Jornal do Sitiante


 


NOV/2006

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